Flávia: Olha-me só para isto eu cá a trabalhar e esta gente na vadiagem.
P. Costa: E ainda por cima deixaram tudo sujo. Este mundo está perdido.
Fátima: Desculpem, mas sou obrigada a concordar convosco. Eu sou a escritora Sophia Anderson.
P. Costa: Eu sou a Dona Francisca.
Flávia: Eu sou a dona Albertina, moramos ali na esquina.
P Costa: Está ver? Também éramos boas para a rima.
2V – Ah que trabalhar! Ah que trabalhar!
Flávia – Que é para isso que nos pagam.
P Costa: Esta vida não é só gozar.
(A dona Albertina e D. Francisca, continua a varrer, e são impedidas por uma adolescente que está sentada no sitio onde elas querem varrer.)
2: A menina não quer levantar esse traseiro do chão para eu varrer?
Filipa: Vocês pensam que mandam em mim? Pah desde quando? Nem a minha cota manda em mim vão ser estas parolas de vassoura na mão.
2: Parolas?
Flávia: Eu dou-te as parolas.
P. Costa: Se a tua mãe não te dá educação eu dou-te umas boas vassouradas que tu pões-te fina.
Filipa: Aih pah as velhas andaram a dar na veia. (ri)
(A dona Albertina enerva-se e incomoda a escritora, que se levante e vai ter com eles.)
Fátima: Desculpai-me intervir, mas não deixei de ouvir a vossa conversa. A menina deve-se controlar a falar com as pessoas. Pois não é a profissão, muito menos o dinheiro que lhe permite faltar ao respeito às pessoas que não conhece.
Filipa: Pah está toda comida.
Fátima: É de lamentar, tal como a senhora disse, este mundo está perdido.
P. Costa: Tal e qual como eu disse.
Flávia: A menina deve pensar que é mais do que eu.
Filipa: Longe de mim tal pensamento. Chamo-me Luana, estou uma beca mal disposta. Admito que errei e depois? Errar é humano.
Flávia: Errar? Vós não errais. Nessa idade copiais a morangada, e agora essa vampiragem que há para aí.
P. Costa: Aliás, isso vê-se pela tua roupa.
Fátima: Tal como disse Voltarire ”A primeira lei da natureza é a tolerância – já que temos todos uma porção de erros e fraquezas”.
Filipa: Voltar… Quantos?
Fátima: Voltarire, um célebre pensador.
Flávia: Bem, pensadores eu só conheço o meu vizinho.
P. Costa: Tem cá um jeito para falar. É um miminho.
Filipa: Nunca ouvi falar do “voltar coisos” na escola. Bem, lá também não se aprende nada. É só curtir com o pessoal.
Flávia: Aí no meu tempo o respeito era muito bonito. Não havia nada disso.
Fátima: Minha senhora os tempos são outros, e sabe como é. Tudo é bonito se for compreendido e claro respeitado. A menina Luana, não acha que lhe ficava, melhor um outro tipo de linguagem e de respeito por quem trabalha honestamente?
Filipa: Talvez, mas repare o que nos forma é a sociedade certo?
Fátima: Sim, é um facto.
P. Costa: Então para me mudar, mude a sociedade.
Flávia: Mudar?
P. Costa: Só com outro Salazar.
Fátima: Não diga isso. Talvez houvesse mais respeito. Mas a arte não era reconhecida. É preciso criticar, é preciso mudar, apreciar uma boa tela de Picasso, descobrir em cada traço algo de novo.
Filipa: Picasso era um chavalo que andava lá na escola.
Flávia: Oh não há direitos, eu mato-me a trabalhar, esse passava os dias sentado a desenhar e ganhava mais do que eu por cada dia de trabalho.
Fátima: Sabe como é, a vida está difícil. Existe muito desemprego. Está tudo muito mal organizado.
Filipa: Tal como me disseram é preciso mudar.
Flávia: Esta civilização.
P. Costa: Está perdida.
Filipa: Eu não sei muito mas tal como diz Fernando Pessoa, “Falas de Civilização…”
Fátima: “Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Filipa: Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Flávia: Tu conheces isso?
Filipa: Claro, ah sempre algo a saber.
Fátima: As aparências iludem. Há que ser diferente. E se me permite dizer a menina Francisca, não há nada como a arte.
P. Costa: E o respeito.
Flávia: Que foi o motivo desta conversa.
Filipa: Sim, e respeito. Agora vou bazar que tenho cenas a fazer. Xau
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Flávia: Já me viu isto?
Fátima: Ainda é novinha deixe lá. Se permite vou continuar a minha leitura. Continuação de um bom dia dona Albertina e dona Francisca.
Flávia: Desculpe o incómodo.
P. Costa: Foi um prazer conhece-la.
Fátima: Até uma próxima.
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sexta-feira, 12 de março de 2010
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